O que está acontecendo com o planeta?
Em dez anos, 3.746 grandes desastres foram registrados no mundo. Terremotos, enchentes, furacões, incêndios e ondas de calor formam uma sequência que impressiona, mas a resposta para o que estamos vendo é mais complexa do que uma única causa.
A madrugada deste sábado trouxe mais uma imagem difícil de ignorar. Um terremoto de magnitude 7,7 atingiu a região de Flores, na Indonésia, derrubou construções, provocou evacuações e levou autoridades a emitir um alerta de tsunami. Até a atualização mais recente consultada nesta madrugada, o número de mortos já havia chegado a pelo menos 20, enquanto equipes continuavam tentando alcançar áreas atingidas.
Isoladamente, seria mais um grande terremoto em uma das regiões tectonicamente mais ativas da Terra.
O problema é olhar para trás.
Nos últimos anos, terremotos devastaram cidades inteiras. Rios ocuparam regiões urbanas. Furacões atravessaram países. Incêndios consumiram bairros. Ondas de calor mataram milhares sem sequer deixar a imagem tradicional de uma cidade destruída.
E, no Brasil, a água mostrou em 2024 que esse debate não pertence a algum lugar distante do mapa.

Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.
3.746 grandes desastres em uma década
Os registros do EM-DAT ajudam a dimensionar a sensação de sucessão permanente de catástrofes.
Entre 2016 e 2025 foram contabilizados 3.746 desastres associados a perigos naturais que atingiram os critérios internacionais utilizados pela base. É uma média de aproximadamente 375 registros por ano, pouco mais de um grande evento por dia.
A sequência anual foi de 342 registros em 2016, 335 em 2017, 315 em 2018, 396 em 2019, 389 em 2020, 432 em 2021, 387 em 2022, 399 em 2023, 393 em 2024 e 358 em 2025.
Esse dado precisa ser lido corretamente.
Os números não mostram uma subida contínua ano após ano. Em 2025, por exemplo, foram registrados menos eventos do que em 2021. Portanto, dizer simplesmente que “nunca houve tantos desastres” seria reduzir uma questão complexa a uma frase que os próprios dados não sustentam.
O que mudou de maneira muito mais clara está no ambiente em que parte desses fenômenos acontece e na quantidade de pessoas, cidades e patrimônio que hoje estão expostos a eles.
Dez catástrofes que ajudam a entender o período
Não existe uma única maneira de classificar as “maiores” catástrofes. Algumas matam mais, outras atingem dezenas de milhões de pessoas, outras provocam perdas econômicas gigantescas. Mas dez episódios recentes mostram a dimensão desse período.
Em 2022, ondas de calor atingiram a Europa e foram associadas pelo EM-DAT a mais de 16 mil mortes em excesso.
No mesmo ano, as enchentes no Paquistão deixaram 1.739 mortos e afetaram cerca de 33 milhões de pessoas.
Em fevereiro de 2023, os terremotos na Turquia e na Síria mataram 56.683 pessoas. Foi responsável sozinho por aproximadamente dois terços das mortes registradas pelo EM-DAT naquele ano.
Meses depois, a tempestade Daniel atingiu a Líbia. O rompimento de barragens transformou a cidade de Derna em uma das imagens mais violentas daquele ano. O EM-DAT contabilizou 12.352 mortos ou desaparecidos.
Ainda em 2023, o ciclone Freddy atravessou o Oceano Índico durante 36 dias, recorde reconhecido pela Organização Meteorológica Mundial. Mais de 1.200 pessoas foram dadas como mortas ou desaparecidas apenas no Malawi, enquanto Moçambique registrou mais de 180 mortes.
Em 2024, a catástrofe chegou ao Sul do Brasil.
Chuvas extremas e enchentes atingiram 478 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul. O balanço da Defesa Civil registrou 183 mortos, mais de 600 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas e mais de 2,3 milhões de atingidos. O EM-DAT estimou perdas de aproximadamente US$ 7 bilhões.
Naquele mesmo ano, furacões como Helene, Milton e Beryl produziram dezenas de bilhões de dólares em prejuízos nos Estados Unidos. Somente o Helene aparece no levantamento do EM-DAT com perdas estimadas em US$ 56 bilhões.
Em janeiro de 2025, os incêndios de Eaton e Palisades avançaram sobre a região de Los Angeles. O balanço posterior chegou a 31 mortes, cerca de 16 mil estruturas destruídas ou danificadas e perdas econômicas estimadas em dezenas de bilhões de dólares.
Em março de 2025, um terremoto de magnitude 7,7 atingiu Myanmar. Pelo menos 3.820 pessoas morreram e as perdas econômicas foram estimadas em US$ 11 bilhões.
Em junho de 2026, outro terremoto, de magnitude 7,8, atingiu Mindanao, nas Filipinas, deixando dezenas de mortos. Pouco mais de dois meses depois, o tremor de magnitude 7,7 na Indonésia volta a colocar o Sudeste Asiático diante de alertas de tsunami, destruição e novas mortes.
Não é uma única tragédia. É o acúmulo delas em nossa memória recente que cria a impressão de que alguma coisa mudou profundamente.
Em parte, mudou.
Mas não da mesma maneira para todos esses fenômenos.

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Rio Grande do Sul mostrou o tamanho da vulnerabilidade
As enchentes de 2024 merecem um capítulo próprio porque retiraram do brasileiro qualquer possibilidade de tratar extremos climáticos como problema abstrato.
Cidades ficaram debaixo d'água. Estradas desapareceram. Pontes foram destruídas. Hospitais, escolas, empresas, propriedades rurais e bairros inteiros foram atingidos.
Mais de 90% dos municípios gaúchos sofreram algum impacto.
A dimensão territorial da inundação transformou a tragédia em um dos maiores desastres climáticos da história recente do Brasil.
Mas a chuva, sozinha, não conta toda a história.
Um fenômeno extremo encontra ocupação urbana, drenagem, barragens, rios, relevo, infraestrutura, planejamento territorial, sistemas de alerta e capacidade de resposta.
A Organização das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres trabalha exatamente com essa distinção. Um perigo natural se transforma em desastre quando encontra exposição e vulnerabilidade.
A natureza fornece o evento. A dimensão da catástrofe também depende da sociedade que ele encontra.
O planeta está mais quente. Isso muda parte da equação
Aqui existe uma resposta científica muito mais objetiva.
A Organização Meteorológica Mundial confirmou que o período entre 2015 e 2025 corresponde aos 11 anos mais quentes já registrados.
Isso significa oceanos mais quentes, mais calor armazenado no sistema climático, maior capacidade da atmosfera de reter vapor d'água e mudanças importantes na ocorrência e intensidade de determinados extremos.
Um planeta mais quente não significa que todo temporal foi “causado pela mudança climática”.
A ciência de atribuição trabalha evento por evento.
Mas o pano de fundo mudou.
Ondas de calor podem atingir temperaturas maiores. Chuvas extremas podem carregar volumes maiores de água. Secas podem se intensificar em determinadas regiões. O calor e a baixa umidade podem criar condições mais perigosas para incêndios. Oceanos excepcionalmente quentes podem fornecer energia adicional aos ciclones tropicais.
O risco climático não está no futuro distante. Ele já participa da realidade atual.

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E os terremotos?
É justamente aqui que uma reportagem séria precisa evitar uma associação sedutora, mas errada.
Terremotos tectônicos não são provocados pelo aquecimento global.
Eles resultam principalmente do movimento das placas tectônicas e da liberação de energia acumulada em falhas geológicas.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos calcula que, em média, o planeta registra aproximadamente 16 grandes terremotos por ano, cerca de 15 na faixa de magnitude 7 e um de magnitude 8 ou superior.
Há anos com mais e anos com menos.
Sequências como a observada recentemente podem impressionar porque grandes tremores aconteceram com pouca distância no calendário e porque hoje cada evento chega praticamente em tempo real às telas de bilhões de pessoas.
Isso não significa que a atividade sísmica global tenha iniciado uma escalada inédita.
É possível que terremotos, enchentes, furacões e incêndios ocupem as manchetes ao mesmo tempo sem possuírem uma causa comum.

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Então por que parece tão diferente?
Porque existem várias mudanças acontecendo simultaneamente.
O clima aqueceu.
A população mundial cresceu.
Grandes cidades avançaram sobre encostas, margens de rios, áreas costeiras e regiões sujeitas a incêndios.
O patrimônio acumulado em zonas de risco aumentou enormemente.
A comunicação tornou qualquer catástrofe imediatamente global.
E eventos geológicos que sempre fizeram parte da dinâmica da Terra continuam acontecendo ao mesmo tempo em que extremos meteorológicos operam dentro de um sistema climático mais quente.
O resultado é uma combinação poderosa.
Não precisamos imaginar um planeta que subitamente “se revoltou” contra seus habitantes para compreender por que as imagens parecem cada vez mais assustadoras.

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O número de desastres não conta a história inteira
Há outro dado interessante.
Em 2024, o EM-DAT registrou 393 desastres associados a perigos naturais. O número ficou apenas moderadamente acima da média dos vinte anos anteriores, de 371.
Mas as perdas econômicas chegaram a aproximadamente US$ 242 bilhões.
Em 2025, foram 358 eventos, abaixo da média de 377 observada entre 2005 e 2024. Mesmo assim, 110,2 milhões de pessoas foram afetadas e as perdas chegaram a quase US$ 170 bilhões.
Contar apenas quantas catástrofes aconteceram esconde uma parte fundamental da realidade.
A pergunta passa a ser onde elas acontecem, quantas pessoas encontram pelo caminho, como as cidades foram construídas e qual capacidade existe para suportar o impacto.

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A resposta para “o que está acontecendo com o planeta?”
Não existe uma única resposta.
Os terremotos recentes pertencem principalmente à dinâmica geológica normal da Terra.
A sucessão de eventos climáticos extremos ocorre sobre o período mais quente já medido pela humanidade.
E a transformação desses fenômenos em grandes tragédias depende também de exposição, vulnerabilidade, urbanização, infraestrutura e preparação.
É por isso que duas cidades podem enfrentar eventos semelhantes e registrar consequências completamente diferentes.
Talvez esse seja o ponto mais incômodo de todos.
Não temos poder para impedir que placas tectônicas se movimentem. Não podemos evitar todos os furacões, tempestades ou períodos de seca.
Mas grande parte da diferença entre um fenômeno severo e uma catástrofe de proporções históricas é construída antes de a primeira parede cair, antes de o rio transbordar e antes de a sirene tocar.
Os últimos anos não mostram simplesmente uma natureza mais violenta.
Eles mostram um planeta mais quente, sociedades muito mais expostas e bilhões de pessoas assistindo, quase em tempo real, ao encontro entre essas duas realidades.





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