Super El Niño pode provocar 857 mil mortes adicionais por calor até março
Estudo estima 484,5 mil mortes adicionais entre junho e setembro e outras 372,9 mil até março.
O atual Super El Niño pode estar produzindo uma das maiores crises de mortalidade relacionada ao calor já estimadas para um único evento climático. Um painel atualizado do Climate Impact Lab projeta cerca de 857,4 mil mortes adicionais em todo o mundo entre junho de 2026 e março de 2027.
O número não representa uma contagem de pessoas oficialmente registradas como vítimas do El Niño. Trata-se de uma estimativa de mortes adicionais associadas ao calor acima do normal, calculada ao comparar a mortalidade esperada durante o evento com padrões históricos de temperatura e mortalidade.
Ainda assim, a dimensão chama atenção: segundo o painel, cerca de 484,5 mil mortes adicionais são estimadas para o período entre junho e setembro de 2026. Para os seis meses seguintes, de outubro a março, outras 372,9 mil são projetadas.
A DIMENSÃO DA PROJEÇÃO
857,4 mil mortes adicionais
estimadas entre junho de 2026 e março de 2027 em razão do calor associado ao atual El Niño.
484 mil mortes estimadas apenas nos primeiros quatro meses
O painel divide o atual episódio em uma parte já transcorrida e uma projeção para os próximos meses.
PROJEÇÃO GLOBAL
Junho a setembro de 2026
484.500
Outubro de 2026 a março de 2027
372.900
Estimativas de mortes adicionais associadas ao calor. Fonte: Climate Impact Lab.
A projeção para os próximos seis meses aumenta progressivamente e chega ao ponto mais crítico em março.
Outubro: 38,3 mil mortes adicionais
Novembro: 49,6 mil
Dezembro: 34,5 mil
Janeiro: 48,8 mil
Fevereiro: 64,2 mil
Março: 137,5 mil
Somente março concentra mais de um terço das mortes adicionais previstas para o período de outubro a março.
Brasil está entre os países mais atingidos
O Brasil também aparece entre os países mais afetados pelas temperaturas acima do normal.
No painel atualizado, são projetadas aproximadamente 19,5 mil mortes adicionais relacionadas ao calor no país somente entre outubro de 2026 e março de 2027.
Considerando também os primeiros meses do atual episódio, reportagens baseadas nos dados atualizados do tracker apontam um acumulado próximo de 26,7 mil mortes adicionais no Brasil entre junho de 2026 e março de 2027.
BRASIL
cerca de 26,7 mil
mortes adicionais relacionadas ao calor estimadas para todo o período até março.
Entre os estados brasileiros, as maiores projeções acumuladas aparecem em áreas já submetidas a temperaturas elevadas e maior vulnerabilidade social.
O Pará aparece com aproximadamente 3,8 mil mortes adicionais projetadas até março, seguido por Maranhão, com cerca de 2,8 mil, Amazonas, com 2,2 mil, e Bahia, com aproximadamente 2,1 mil.
Por que a projeção aumentou tanto?
O Climate Impact Lab havia divulgado em setembro uma projeção muito menor: cerca de 451 mil mortes adicionais relacionadas ao calor até fevereiro de 2027.
O próprio laboratório explica que a revisão para 857 mil ocorreu principalmente por duas razões.
A primeira foi a inclusão de março no período analisado.
A segunda foi mais preocupante: agosto e setembro ficaram consideravelmente mais quentes do que os modelos haviam previsto.
Segundo o laboratório, agosto de 2026 foi o agosto mais quente já registrado, enquanto setembro foi o segundo mais quente da série considerada.
Isso obrigou os pesquisadores a recalcular a dimensão esperada da mortalidade.
COMO A ESTIMATIVA MUDOU
Projeção de setembro:
451 mil mortes
Tracker atualizado:
857,4 mil mortes
Não são pessoas registradas oficialmente como “mortas pelo El Niño”
A diferença é fundamental.
Quando uma pessoa morre durante uma onda de calor, o atestado de óbito pode registrar problemas cardiovasculares, respiratórios, renais ou outras causas médicas.
Por isso, estudos de mortalidade climática trabalham com o conceito de excesso de mortes: quantas pessoas morreriam em determinado cenário de temperatura e quantas mortes adicionais aparecem quando o calor fica acima do padrão esperado.
O tracker compara o episódio atual com uma referência histórica e combina dados de temperatura, mortalidade, vulnerabilidade regional e capacidade de adaptação.
Os 857,4 mil óbitos, portanto, são uma estimativa estatística de mortalidade adicional associada ao calor, e não uma contagem oficial de certidões de óbito atribuídas diretamente ao El Niño.
Por que calor extremo mata?
Temperaturas muito elevadas obrigam o organismo a trabalhar continuamente para manter sua temperatura interna.
Idosos, crianças pequenas, pessoas com doenças cardiovasculares, renais ou respiratórias, trabalhadores expostos ao sol e populações com pouco acesso a água, sombra, ventilação e refrigeração estão entre os grupos mais vulneráveis.
O risco também cresce quando o calor extremo se prolonga por vários dias e as temperaturas permanecem elevadas durante a noite, impedindo o organismo de se recuperar.
Por isso, a consequência do El Niño não se limita a termômetros marcando recordes.
O efeito pode aparecer em hospitais, atendimentos de emergência, doenças agravadas e mortalidade acima daquela que seria esperada em condições climáticas normais.
El Niño não provoca apenas calor
O episódio atual também pode alterar profundamente os padrões de chuva.
Em determinadas regiões, o fenômeno favorece secas prolongadas. Em outras, aumenta a possibilidade de chuvas intensas, tempestades e enchentes.
Esses impactos podem afetar produção agrícola, abastecimento de água, geração de energia, preços de alimentos, infraestrutura e saúde pública.
Por isso, a projeção de mortalidade do Climate Impact Lab aborda especificamente o impacto do calor. Mortes ou prejuízos ligados a enchentes, secas, incêndios e outros efeitos climáticos representam consequências adicionais e não estão necessariamente incluídos nesse total.
Há formas de reduzir as mortes
Os pesquisadores destacam que a projeção não deve ser interpretada como um destino inevitável.
Entre as medidas capazes de reduzir a mortalidade estão sistemas de alerta de calor, ampliação temporária da capacidade dos serviços de saúde, pontos de distribuição de água, centros públicos refrigerados, proteção para trabalhadores expostos e acompanhamento de pessoas vulneráveis.
O laboratório pretende atualizar o painel mensalmente até o encerramento do atual episódio de El Niño.
OPINIÃO DA REDAÇÃO
O número de 857 mil mortes é tão grande que corre o risco de virar apenas mais uma estatística impossível de visualizar.
Mas cada unidade dessa projeção representa uma pessoa que pode morrer antes do que morreria se as temperaturas permanecessem dentro do padrão esperado.
É justamente por isso que o debate sobre clima não pode existir apenas quando uma enchente destrói uma cidade ou quando a seca deixa um rio sem água.
Calor também mata. E frequentemente mata de forma silenciosa.
Um idoso que sofre uma descompensação cardíaca, um trabalhador exposto durante horas ao sol ou uma pessoa doente em uma casa que não consegue resfriar pode nunca aparecer em uma estatística com a palavra “El Niño” ao lado do nome.
Isso torna ainda mais importante que governos transformem previsão climática em política de saúde pública.
Quando é possível saber com meses de antecedência onde a temperatura poderá atingir níveis perigosos, também é possível preparar hospitais, emitir alertas, identificar populações vulneráveis, organizar pontos de hidratação e criar protocolos para trabalhadores expostos.
Se a ciência consegue antecipar parte do risco, cada morte evitável que ocorrer por falta de preparação deixa de ser apenas uma tragédia climática e passa também a representar uma falha de prevenção.
Fontes: Climate Impact Lab — El Niño Heat Mortality Tracker; Institute for Climate and Sustainable Growth, Universidade de Chicago.





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