• Jornal Carangola

Uber perde US$ 13 bilhões na bolsa de Nova York

Resultados ruins colocam em xeque modelo de negócios dos aplicativos de transporte


São Paulo – A empresa que revolucionou o transporte de passageiros no mundo e que, desde a fundação, há exatos 10 anos, sempre esteve na lista das mais inovadoras do mundo tem experimentado nos últimos dias o sabor amargo da derrota. Depois de abrir o capital na bolsa de Nova York, na sexta-feira, a Uber repetiu ontem o fiasco da estreia.

Em seu segundo pregão, as ações do aplicativo de transporte voltaram a operar em baixa. Desta vez, os papéis da companhia recuaram cerca de 10%, cotados a US$ 37, após queda de 7% na estreia em Wall Street. Apesar de ter levantado US$ 8,1 bilhões na sexta-feira passada, o IPO (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês) veio abaixo das expectativas da empresa e do mercado, que inicialmente havia cotado suas ações a US$ 45.


As dificuldades enfrentadas pela Uber escancaram os enormes desafios impostos às empresas revolucionárias de tecnologia. O IPO da Uber foi o mais expressivo do mercado americano desde 2014, quando o grupo Alibaba levantou US$ 21,8 bilhões, mas mesmo assim ele pode ser considerado um retumbante fracasso – pelo menos até agora.


Em apenas dois dias de ações negociadas na bolsa norte-americana, a Uber perdeu US$ 13 bilhões em valor de mercado. Para ter ideia do que isso significa, o montante equivale às vendas anuais somadas de empresa dos portes de Ambev e Grupo Pão de Açúcar. Não é só. Segundo levantamento realizado pela consultoria Dealogic, o IPO da Uber é um dos oito piores da história em termos de desempenho na estreia.


A Uber não é a única empresa de tecnologia a enfrentar dificuldades no mercado acionário dos Estados Unidos. A Lyft, principal concorrente da Uber no país, abriu o capital no início de abril e também tem alcançado resultados decepcionantes. Quando a empresa anunciou sua oferta pública inicial, o valor de cada ação estava precificado a US$ 72. Desde então, os papeis despencaram e atualmente não chegam a US$ 50.


A performance negativa das duas empresas expõe um problema mais estrutural do que momentâneo. Especialistas já colocam em xeque o futuro desse modelo de negócio. “Tanto Uber quanto Lyft têm encontrado enormes dificuldades para fazer dinheiro com seu modelo operacional”, diz Paulo Daryo Ortegas, consultor especializado em tecnologia. “O problema é tão grave que já há quem questione se algum dia eles serão capazes de dar lucro.”


Um dos desafios centrais dos aplicativos de transporte é a remuneração dos motoristas. No mundo inteiro, condutores têm protestado contra o que consideram baixos ganhos e jornadas excessivas de trabalho. Em alguns países, eles também pleiteiam na Justiça o vínculo empregatício – exigência que, segundo muitos especialistas, poderia inviabilizar o equilíbrio financeiro do negócio.

PREJUÍZO

Não tem sido fácil para a Uber manter a operação no azul. No ano passado, a empresa amargou prejuízo de US$ 1,8 bilhão. Em 2017, o resultado havia sido ainda pior, com perdas totais de US$ 4,5 bilhões. No Brasil, segundo maior mercado para a empresa depois dos Estados Unidos, a Uber faturou US$ 959 milhões em 2018, crescimento de 15% na comparação com o ano anterior.


A Uber conquistou uma legião de consumidores em diversas partes do mundo graças, principalmente, a uma política agressiva de preços. Ao cobrar valores baixos pelas corridas, o aplicativo roubou clientes dos taxistas e comprou briga com autoridades regulatórias. Agora, é justamente esse modelo que pode estar com os dias contados.


Em entrevista ao portal Infomoney, Paulo Veras, fundador da 99, e Tallis Gomes, fundador da Easy, afirmaram que, se aplicativos de transporte como Uber não revisarem seu negócio, a única saída será aumentar o preço final das concorridas para os consumidores. Mas, se isso ocorrer, as pessoas continuarão dispostas a trocar os táxis tradicionais pelos carros da Uber? Até agora, nem a empresa parece saber a resposta para essa questão.


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