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A Persistência da Tragédia: Oito Anos Após o Desastre de Mariana, Continua à Beira do Abismo

Um Olhar Detalhado sobre as Consequências da Mineração e a Luta por Justiça Ambiental em Minas Gerais

Oito anos após o desastre que chocou o Brasil e o mundo, a tragédia de Mariana permanece ecoando nas paisagens de Minas Gerais, do distrito de Bento Rodrigues à cidade de Barão de Cocais. Enquanto as feridas do passado ainda estão longe de cicatrizar, novos alertas sobre rompimentos de barragens de mineração pairam sobre a região, deixando seus habitantes em constante apreensão.


O rompimento da barragem de Fundão, que pertencia à Samarco, uma joint venture entre as gigantes Vale e BHP Billiton, ocorreu em 5 de novembro de 2015, despejando 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração na bacia do rio Doce e deixando um rastro de destruição que se estendeu até o mar no Espírito Santo. Dezenove vidas foram perdidas na tragédia, incluindo a de uma mulher grávida, e a lama engoliu comunidades inteiras, casas, animais e memórias.


A luta por justiça e reparação é um fio condutor nessa história. Além das inúmeras ações judiciais no Brasil, um processo corre na Inglaterra, país de origem da BHP, buscando responsabilizar as empresas envolvidas.


A tragédia de Mariana não foi um caso isolado no Brasil. Pouco mais de três anos depois, outra barragem da Vale se rompeu em Brumadinho, resultando na morte de 270 pessoas, incluindo duas gestantes. Surpreendentemente, nenhum envolvido enfrentou punições criminais em nenhum dos casos, levantando sérias questões sobre a justiça ambiental no país.



Com a repetição dessas tragédias, as mineradoras foram forçadas a acelerar as remoções de comunidades situadas próximas a barragens, como foi o caso da comunidade de Socorro, em Barão de Cocais. Os moradores acordaram com o som de sirenes em fevereiro de 2019, sendo obrigados a abandonar suas casas em meio a riscos de deslizamento da barragem Sul Superior, também pertencente à Vale. Muitos nunca mais puderam voltar.


Em meio ao cenário desolador, Élida Couto, uma antiga moradora de Socorro, liderou nossa equipe pela cidade fantasma que a comunidade se tornou. Suas palavras ecoam a dor de tantos outros: "Perdemos o espaço onde fomos nascidos e criados, a memória. Tudo."



O avanço da mineração na região, corroborado por imagens de satélite, é denunciado por moradores. Os atingidos se referem a isso como "terrorismo de barragem", alegando que o risco é usado como uma ferramenta de pressão para facilitar a expansão das operações de mineração.


As empresas são responsáveis por classificar os riscos das barragens, o que levanta questões sobre a imparcialidade desse processo. Como aponta o ambientalista Ronald Guerra, "Quem diminui ou aumenta o risco é a própria empresa. Uma autodeclaração de uma empresa na qual não confiamos é algo extremamente frágil."


É inegável que a dependência econômica da região em relação à mineração torna a situação ainda mais complexa. As mineradoras exercem uma influência considerável, e a pressão para a expansão de suas operações é constante.


A Vale afirma que a barragem está em processo de descaracterização, com previsão de conclusão em 2029, antes da possível volta das famílias. A empresa também destaca um acordo judicial de reparação que prevê R$ 527 milhões para Barão de Cocais em programas de transferência de renda e fortalecimento de serviços públicos, com R$ 90 milhões já pagos.



Porém, a plataforma MapBiomas, que analisa imagens de satélite, indica uma expansão das áreas de mineração até 2022, contradizendo as afirmações da empresa. Organizações de atingidos continuam a denunciar o avanço das operações, enquanto o risco de deslizamento persiste e o retorno das comunidades afetadas permanece proibido.


À medida que o tempo avança, a população atingida vive na incerteza e na constante sensação de impotência. As casas vazias e vandalizadas de Antônio Pereira são testemunhas do abandono que muitos enfrentam.



Enquanto as lideranças no embate com a Fundação Renova, criada para gerir a reparação, enfrentam obstáculos e retaliações, as características dos novos reassentamentos muitas vezes parecem estar em desacordo com a ideia de reparação dos modos de vida. O antigo Bento Rodrigues era uma comunidade rural, plana, com casas abastecidas de água bruta e espaços para a criação de animais e plantações. O novo Bento está em um terreno montanhoso, com um cenário que lembra mais um empreendimento imobiliário urbano do que uma comunidade rural.


Monica dos Santos, uma moradora que cresceu em Bento Rodrigues, expressa a sensação de falta que muitos compartilham: "Estão fazendo um reassentamento para mostrar para o mundo que entregaram casas melhores do que as que tínhamos, mas sempre falta algo."

A incerteza quanto ao futuro da região persiste. Não há uma definição clara sobre o que será feito das ruínas de Bento Rodrigues, parte das quais permanece submersa devido a um dique.


À medida que essa saga complexa e angustiante continua, a população atingida busca por respostas, justiça e um retorno digno às suas vidas. Fica claro que as tragédias de Mariana e Brumadinho não são apenas lembranças do passado, mas realidades que continuam a assombrar Minas Gerais.



Enquanto as mineradoras continuam a operar e expandir suas atividades, a segurança das barragens e a proteção das comunidades não podem ser comprometidas. A busca por responsabilidade e justiça ambiental deve ser incansável.


A persistência dessas questões exige a atenção constante das autoridades e da sociedade. É um lembrete de que o Brasil, e o mundo, não podem esquecer as lições do passado e devem trabalhar incansavelmente para garantir um futuro mais seguro e justo para todos.


Por Alex Ferreira


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*Este artigo é uma contribuição de Alex Ferreira. Siga @jornalcarangola no Twitter para mais informações e atualizações.*



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