Amélia Rodrigues
O Enigma da Origem do Autismo : De Gênesis a Mitos
Uma Conversa Sincera sobre as Causas
O Enigma da Origem : De Gênesis a Mitos – Uma Conversa Sincera sobre as Causas do Autismo
Quando nos deparamos com o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), a primeira pergunta que nos assombra, silenciosa ou gritante, é sempre a mesma: "Por quê?"
No consultório, nas rodas de conversa de pais ou nas buscas noturnas na internet, tentamos encaixar a peça de um quebra-cabeça complexo. Foi algum alimento consumido na gestação? Foi o estresse da gravidez? Foi o ar condicionado do quarto?É um peso essa busca pela causa, mas a ciência nos oferece, hoje, um alívio fundamental: o autismo não é culpa de ninguém.
A resposta mais importante é que não existe uma causa única. O TEA é uma condição complexa do neurodesenvolvimento, majoritariamente ancorada em fatores biológicos e genéticos, resultando na singularidade do cérebro.
Fator Genético: A Realidade no DNA
O consenso científico é claro: a genética é a principal responsável, respondendo por uma grande porcentagem da probabilidade. Mas, esqueça a ideia de um "gene culpado". A beleza (e a complexidade) do espectro reside nisto:
Uma Orquestra, Não Um Solista: Não se trata de um gene isolado, mas de centenas de genes que, juntos, influenciam a forma como as conexões neurais são formadas. É essa diversidade genética que torna cada pessoa autista única, justificando o termo "espectro".
Variações e Mutações: O código genético de uma criança autista pode trazer variações herdadas dos pais (que podem ou não estar no espectro) ou mutações espontâneas (de novo). É uma loteria biológica que ocorre no nível celular, muito antes de qualquer atitude parental.
Fatores Ambientais: O Que Acontece Antes de Nascer
Quando a ciência fala em "fatores ambientais", ela não está culpabilizando o ambiente familiar ou a criação da criança, e é vital entender essa distinção. Refere-se a fatores biológicos que interagem com a genética durante a gestação ou nascimento:
Idade no Nascimento: O risco aumenta ligeiramente em crianças nascidas de pais mais velhos.
Gestação Delicada: A prematuridade extrema (nascimentos muito antecipados) e o baixo peso ao nascer são fatores de risco bem documentados.
Exposições Pré-natais: Algumas infecções graves ou o uso de medicamentos específicos durante a gravidez (como o ácido valproico) também podem elevar o risco em indivíduos geneticamente predispostos.
Desfazendo os Mitos: Fatos e Ficção
Aqui, precisamos usar a força do conhecimento para derrubar o medo infundado. É aqui que o peso da culpa, muitas vezes sentido pelos pais, é totalmente injustificado:
O Veredito Científico: Não há nenhuma evidência médica que ligue o uso de ar condicionado, mudanças bruscas de temperatura ou "choques térmicos" ao desenvolvimento do TEA. O autismo é uma condição neurobiológica de forte base genética, e não uma reação a um resfriado ou a uma brisa. Se você se pegou pensando nisso, respire fundo: está livre dessa culpa.
A Farsa da Vacinação: Da mesma forma, não existe relação científica comprovada entre vacinas e autismo. O estudo original que lançou essa ideia no mundo foi provado como fraudulento. As grandes organizações de saúde global, incluindo a OMS e o CDC, são unânimes: as vacinas são seguras.
O Poder de Focar no Entendimento
O enigma da origem continua sendo desvendado, mas a nossa maior vitória social não está em encontrar uma cura, e sim em alcançar um melhor entendimento de como o cérebro autista funciona.
O conhecimento nos permite o Diagnóstico Precoce e, com ele, a possibilidade de intervenções que, embora não "curem", oferecem caminhos para suavizar os desafios e maximizar o potencial.
Ele nos leva a adotar Intervenções Individualizadas, reconhecendo que o que funciona para um autista pode não funcionar para outro.
Acima de tudo, o conhecimento é a arma mais potente contra o capacitismo. Ao aceitar o autismo como uma variação biológica – uma maneira diferente e legítima de o cérebro se desenvolver – podemos parar de exigir que a pessoa autista se "cure" ou se adapte totalmente.
O foco passa a ser a inclusão e a criação de ambientes (como a escola, o local de trabalho, a sociedade) que se adaptem à sua essência. O autismo continua sendo um mistério fascinante. Abrace a aceitação e o suporte, pois são eles, e não a busca por culpas, que construirão um mundo verdadeiramente inclusivo.




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