Banco de Edir Macedo é investigado por operação que teria ocultado prejuízo milionário
Segundo reportagem do Estadão reproduzida por outros veículos, o Banco Digimais teria usado fundos de investimento para retirar carteiras inadimplentes do balanço e declarar lucro em 2025.
O Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de fraudes envolvendo operações que teriam retirado do balanço carteiras de crédito com alta inadimplência. Segundo reportagem do Estadão, reproduzida por veículos como Diario de Pernambuco, Jornal de Brasília e Brasil 247, documentos, auditorias, contratos e análises de especialistas apontam que o banco teria usado fundos de investimento para deslocar perdas multimilionárias de suas demonstrações financeiras. O Digimais está em crise e à venda há mais de um ano. Até 2020, a instituição se chamava Banco Renner. O banco não possui agências e tem como principal linha de atuação o financiamento de veículos, além de crescimento recente no segmento de crédito consignado. De acordo com a reportagem, as operações envolvendo fundos fizeram o banco declarar lucro de R$ 31 milhões ao fim de 2025. A manobra teria feito o Digimais deixar de declarar pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos, valores que deveriam reduzir o resultado informado pela instituição. Especialistas ouvidos pelo Estadão classificaram alguns negócios como de alto risco regulatório e sinal vermelho forte. Um dos pontos centrais da apuração é que os fundos usados nas operações tinham o próprio Digimais como cotista. No mercado financeiro, esse tipo de estrutura é conhecido como operação “Zé com Zé”, quando uma instituição aparece dos dois lados do balcão. Na prática, o banco venderia carteiras problemáticas a fundos dos quais ele próprio participa. Para o mercado, a operação pode parecer uma venda a terceiros. Mas o risco econômico pode continuar ligado ao próprio banco. A situação pode ser maior que o valor inicialmente identificado. Segundo as reportagens, há cerca de R$ 3 bilhões em investimentos em fundos que não puderam ser plenamente auditados por falta de acesso a documentos que comprovassem suas demonstrações financeiras. Um dos fundos citados é o Tabor, que tinha R$ 960 milhões em carteiras de crédito em abril de 2026. Desse total, R$ 575 milhões estavam inadimplentes. Outra operação envolveu a holding de Edir Macedo, que comprou R$ 741 milhões em cotas que o Digimais detinha em um fundo chamado Hermon. A auditoria independente registrou ressalvas sobre a operação, afirmando que ela poderia não refletir condições usuais de mercado. Em meio à crise, o BTG Pactual negocia a compra do Digimais. O banco informou ao Estadão que assinou documentos vinculantes para uma potencial aquisição, ainda sujeita a condições precedentes e a processo competitivo. A eventual transação também dependeria de mecanismos de suporte financeiro, incluindo participação do Fundo Garantidor de Créditos. Procurado pelo Estadão, o Digimais não quis se manifestar. A Igreja Universal também não comentou. Até o momento, as informações tratam de investigação e suspeitas. Não há condenação ou conclusão definitiva sobre as operações. O caso do Banco Digimais tem todos os elementos de uma pauta que o Brasil costuma fingir que é técnica demais para o cidadão entender: banco médio, fundo de investimento, carteira inadimplente, auditoria com ressalva, Polícia Federal, Banco Central, FGC e uma possível venda no meio da crise. Mas a essência é simples. A suspeita é de que créditos problemáticos tenham sido deslocados para fundos, fazendo o balanço parecer melhor do que seria se as perdas permanecessem visíveis. A tensão central está entre contabilidade e realidade econômica. Um prejuízo pode sair de uma linha do balanço. Mas, se o risco continua dentro da estrutura, ele não desaparece. Apenas muda de sala. É aí que a operação “Zé com Zé” chama atenção. Quando o banco vende carteiras a fundos dos quais ele próprio participa, a aparência pode ser de limpeza. A pergunta dura é outra: quem, de fato, absorve o risco? O mercado financeiro brasileiro tem uma habilidade antiga de transformar problema em estrutura. O nome muda: fundo, cessão, carteira, suporte, mecanismo, condição precedente. A lógica, muitas vezes, é a mesma: empacotar o risco, mudar a vitrine e esperar que alguém pague a conta no fim. O caso ainda está em apuração. Não há condenação. Mas há sinais suficientes para exigir fiscalização sem anestesia: créditos vencidos, fundos difíceis de auditar, ressalvas de auditoria, investigação da PF e negociação de venda com possível participação do FGC. Quando banco quebra, o prejuízo raramente fica preso no banco. Ele escorre para o sistema, para o fundo garantidor, para o mercado, para o crédito e, no limite, para a confiança pública. No mercado financeiro, a expressão “Zé com Zé” é usada para descrever operações em que uma mesma instituição aparece, direta ou indiretamente, dos dois lados do negócio. No caso do Digimais, segundo as reportagens, o banco teria vendido carteiras de crédito problemáticas para fundos de investimento dos quais ele próprio era cotista. Em termos simples, é como se o banco tirasse créditos ruins do próprio balanço e os colocasse em uma estrutura que, embora pareça externa, ainda mantém vínculo econômico com ele. Essa operação pode alterar a forma como o risco aparece nas demonstrações financeiras. Se uma carteira inadimplente deixa o balanço do banco, o resultado contábil pode melhorar. Mas isso não significa, automaticamente, que o risco tenha sido eliminado. O ponto técnico decisivo é saber se a transferência refletiu condições reais de mercado, se houve transparência adequada, se os fundos tinham independência econômica, se os ativos foram corretamente avaliados e se os auditores tiveram acesso suficiente aos documentos. Outro ponto relevante é o impacto sobre o lucro declarado. Segundo as reportagens, o Digimais declarou lucro de R$ 31 milhões em 2025, enquanto teria deixado de reconhecer pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos que deveriam reduzir o resultado. A existência de R$ 3 bilhões em fundos que não puderam ser plenamente auditados aumenta a gravidade da análise. Sem documentação suficiente, auditores e reguladores têm mais dificuldade para verificar se os números representam a situação real da instituição. Até a conclusão das investigações, o caso deve ser tratado como suspeita de fraude e manobra contábil sob apuração, não como culpa definitiva.Banco de Edir Macedo é investigado por operação que teria ocultado prejuízo milionário
Operação teria melhorado artificialmente o balanço
Banco nos dois lados do negócio
Auditoria apontou dificuldade de verificação
BTG negocia compra do Digimais
Quando o prejuízo sai do balanço, mas não sai do sistema
O que significa operação “Zé com Zé”





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