Qual é a função do deputado estadual
O que o deputado estadual pode, o que não pode e onde termina sua influência dentro da federação brasileira
A organização política do Brasil baseia-se no princípio federativo e na tripartição dos poderes, replicada nas esferas federal, estadual e municipal. Nesse contexto, a Assembleia Legislativa representa o Poder Legislativo no âmbito das unidades federativas. É neste espaço que atuam os parlamentares eleitos para representar a população do estado, exercendo funções vitais para a manutenção da democracia e o equilíbrio institucional entre os poderes. A compreensão técnica das prerrogativas deste cargo é essencial para o exercício pleno da cidadania.
O que faz um deputado estadual e suas competências constitucionais
A Constituição Federal de 1988 estabelece que cabe aos deputados estaduais legislar sobre todas as matérias que não sejam de competência exclusiva da União ou dos Municípios. Portanto, para compreender exatamente o que faz um deputado estadual, é necessário analisar suas duas funções primordiais: a legislativa e a fiscalizadora.
A função legislativa envolve a proposição, discussão e aprovação de leis ordinárias e complementares que têm validade dentro do território estadual. Isso inclui:
- Criação e alteração de tributos estaduais: Como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA);
- Definição do orçamento: Análise e votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) e do Plano Plurianual (PPA), decidindo onde os recursos públicos serão aplicados;
- Organização administrativa: Criação, extinção ou modificação de cargos e secretarias estaduais.
Além de legislar, a função de controle externo é igualmente crítica. A sociedade frequentemente questiona como ele fiscaliza o governador, e a resposta reside em mecanismos institucionais específicos. O deputado estadual não apenas monitora as ações do Poder Executivo, mas possui ferramentas legais para investigar irregularidades.
Os principais instrumentos de fiscalização incluem:
- Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs): Instauradas para investigar fato determinado e por prazo certo, com poderes de investigação próprios das autoridades judiciais;
- Pedidos de informação: Solicitações oficiais que obrigam secretários e dirigentes de órgãos estaduais a prestar esclarecimentos sobre ações e gastos, sob pena de crime de responsabilidade;
- Julgamento de contas: Análise anual das contas prestadas pelo governador, com auxílio técnico do Tribunal de Contas do Estado (TCE);
- Convocações: Poder de convocar autoridades estaduais para depor pessoalmente na Assembleia Legislativa.
Evolução histórica do legislativo estadual no Brasil
A figura do representante legislativo local possui raízes profundas na história política brasileira, embora suas competências tenham variado drasticamente conforme o regime de governo vigente. Durante o período imperial (1822-1889), existiam as Assembleias Legislativas Provinciais. Contudo, a autonomia dessas casas era limitada, uma vez que os presidentes de província eram nomeados diretamente pelo Imperador, centralizando o poder.
Com a Proclamação da República em 1889 e a adoção do federalismo, as antigas províncias transformaram-se em estados, ganhando autonomia para elaborar suas próprias constituições e eleger governadores. As Assembleias Legislativas passaram a ter um papel mais robusto na definição das políticas regionais.
No entanto, durante os períodos de exceção, como o Estado Novo (1937-1945) e o Regime Militar (1964-1985), as prerrogativas dos deputados estaduais foram severamente restringidas. O Poder Executivo federal exercia forte controle sobre os estados, muitas vezes intervindo diretamente e limitando a capacidade de fiscalização e legislação autônoma. A atual configuração, consolidada pela Constituição de 1988, buscou resgatar e fortalecer o pacto federativo, garantindo às Assembleias Legislativas a autonomia administrativa e política necessária para o equilíbrio democrático.
Funcionamento da Assembleia Legislativa e processo legislativo
A rotina de trabalho de um deputado estadual divide-se entre as sessões plenárias, as comissões temáticas e o atendimento às bases eleitorais. O processo legislativo segue um rito rigoroso para garantir a constitucionalidade e a viabilidade das propostas.
A tramitação de um projeto de lei geralmente obedece às seguintes etapas:
- Apresentação: O projeto é protocolado na Mesa Diretora;
- Comissão de Constituição e Justiça (CCJ): Esta é a comissão mais importante, pois avalia se a proposta fere a Constituição Federal ou Estadual. Se for considerada inconstitucional, o projeto costuma ser arquivado;
- Comissões Temáticas: Após a CCJ, o texto segue para comissões específicas (Saúde, Educação, Transportes, etc.) que analisam o mérito da proposta;
- Plenário: O projeto é debatido e votado por todos os deputados. Dependendo da matéria, pode exigir quórum simples ou qualificado (maioria absoluta ou dois terços);
- Sanção ou Veto: Se aprovado, o texto vai para o governador, que pode sancioná-lo (transformar em lei) ou vetá-lo (total ou parcialmente). Em caso de veto, a Assembleia pode derrubá-lo e promulgar a lei.
O funcionamento eficaz depende também do Colégio de Líderes, grupo formado pelos líderes das bancadas partidárias que define a pauta de votações e busca consensos políticos para o andamento dos trabalhos.
Impacto social e relevância política do mandato
A relevância do deputado estadual reside na sua capacidade de atuar como um elo entre as demandas locais dos municípios e a estrutura administrativa do governo estadual. Enquanto vereadores tratam de questões estritamente municipais e deputados federais focam em temas nacionais, o deputado estadual opera na esfera intermediária que gere serviços essenciais de grande porte, como segurança pública (polícias civil e militar), saneamento básico, sistemas penitenciários e educação de ensino médio.
Um mecanismo de alto impacto social são as emendas parlamentares impositivas. Através delas, os deputados podem destinar recursos diretos do orçamento estadual para obras, hospitais, escolas ou instituições filantrópicas em suas regiões de atuação. Isso permite uma descentralização de recursos que, teoricamente, atende de forma mais ágil às carências específicas das comunidades.
O mandato do deputado estadual é, portanto, um pilar fundamental na estrutura de pesos e contrapesos do Estado brasileiro. Ao exercer com rigor técnico o que faz um deputado estadual e como ele fiscaliza o governador, o parlamentar garante a transparência na gestão dos recursos públicos e a execução de políticas que impactam diretamente a qualidade de vida da população, consolidando a autonomia federativa prevista na Constituição.





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